CONTRIBUIÇÃO DA ARTICULAÇÃO MINAS AO DEBATE INTERNO DA CNB

 

O Brasil esteve submetido a ataques políticos que visavam a desestabilização do governo desde 2013, e mais claramente a partir da vitória de Dilma no segundo turno de 2014. Até julho de 2013 a presidente Dilma, na metade de seu primeiro mandato, usufruia de boa aprovação popular em todas as pesquisas de opinião, oscilando entre 48 e 63% de ótimo e bom pelo Instituto Ibope (figura 1) e entre 47 e 65% de ótimo e bom pelo Instituto DataFolha (figura 2)...

 

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Figura 1 – Avaliação do Governo Dilma no período de março/2011 a julho/2013- Instituto Ibope

 

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Figura 1 – Avaliação do Governo Dilma no período de março/2011 a julho/2013- Instituto DataFolha

 

Há várias opiniões e interpretações sobre as mobilizações de 13. O estopim para a mobilização de milhões de pessoas em todo o país, isso é unanimidade, foi a violenta repressão do governo Alckmin à manifestação do MPL (Movimento Passe Livre) contra o aumento das passagens de ônibus em 0,20 (vinte centavos). A solidariedade aos agredidos, por causa vista como justa pela população, lotaram as ruas. Isso é fato.

Mas aproveitando-se dessa oportunidade, organizações de extrema direita até então sem visibilidade pública, novas organizações originadas no mundo da internet (financiadas por ONGs americanas e setores da oposição), setores mais retrógrados da Igreja Católica (sumidos há bastante tempo como TFP e congêneres) e de Igrejas Evangélicas (principalmente as pentecostais), hegemonizaram as Manifestações dando-lhe uma nítida matiz antipartidos e movimentos sociais, até então vanguardas das mobilizações de ruas no país desde o combate à ditadura, na luta pela redemocratização, pela Anistia, pelas eleições diretas, pela Constituinte, por direitos e justiça social.

Resgistre-se que a primeira reação da Mídia às Manifestações do MBL em São Paulo, foram de repúdio. Basta ver como exemplo as manchetes dos jornalões, a cobertura das TVs e principalmente o comentário de Arnaldo Jabor. O que se percebeu foi uma mudança de postura radical da cobertura da Mídia que, ao perceber a adesão da população, passa a cobrir as Manifestações On-line e a ser mesmo uma espécie de agente mobilizador das ruas, canalizando contra o governo federal todo o descontentamento ali expressado difusamente.

Observemos nas figuras 3 e 4 as pesquisas de opinião realizadas após a Jornada de junho. De julho de 2013 a dezembro de 2014 há alternâncias de períodos de leve recuperação e queda da avaliação positiva do governo Dilma. Nos primeiros meses de 2015, o governo Dilma vê sua aprovação totalmente invertida em relação à situação anterior.

 

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Figura 3 – Avaliação do Governo Dilma no período de jun/2013 a mar/2016- Instituto Ibope

 

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Figura 4 – Avaliação do Governo Dilma no período de jun/2013 a mar/2016- Instituto DataFolha

 

A oposição entrou de carona nas manifestações, claramente hegemonizadas pela direita mais retrógrada, e passou a financiar seus líderes virtuais, juntamente com apoios externos (vide os americanos irmãos Cok, do TeaParty). Ancorados na grande mídia (com destaque às TVs e particularmente, à TV Globo – dada a sua maior inserção) conduziram o país a um grande conflito (jamais visto - como ataques de vândalos, quebradeira de patrimônio e violência explícita que levou à mortes e mutilações). Todo esse movimento foi conduzido para impor uma derrota à candidatura da presidenta Dilma Roussef na eleição em outubro de 2014.

Na prática as ruas se mostrariam contraditórias. Ao mesmo tempo em que repudiavam a política (e expressava isso na rejeição aos partidos e, mais particularmente ao PT e às esquerdas), exigiam mais políticas do Estado e com mais qualidade. Exigiam Mais saúde, Mais Educação. Mais Transporte público. Mais Segurança. E abominavam a corrupção.

 

Eleições de 2014

Dessa ambiguidade prevaleceu o sinal autoritário da anti-política, do antipetismo, da rejeição às diferenças. Os resultados contraditórios das eleições seguiram esse rumo.

O povo reelegeu a presidenta Dilma com um programa (compromissos assumidos publicamente na campanha) mais avançado e mais radicalizado que da primeira eleição em relação às políticas públicas de mais distribuição de renda, riqueza, poder e cultura. E para o Congresso o povo elegeu o mais reacionário desde a Constituinte de 1988. A nova legislatura da Câmara foi composta majoritariamente pelas bancadas da Bala, do Boi, da Bíblia, da Bola, dos Bancos, das Empreiteiras. E no Senado a volta de oposicionistas de alto coturno como José Serra e Tasso Jereissati e a presença de ex-governadores experientes como Anastasia, Cássio, Álvaro Dias. Todos com desenvoltura nacional.

Essa composição redundou na maioria de Eduardo Cunha na Câmara impondo sua pauta bomba contra o país (para desgastar a presidenta reeleita) e sua pauta de retirada de direitos e conquistas sociais no último período.

A oposição, que não aceitou a derrota nas urnas, se viu reforçada pela turma liderada por Cunha na Câmara para tentar dificultar, emperrar, inviabilizar e, por fim, interditar o governo da presidenta reeleita. Tudo isso com o apoio e suporte inestimável da mídia empresarial e dos neo movimentos virtuais de direita que cumprem o papel de bobos da corte, se ainda não bem pagos, apostando num futuro de fartura.

 

O segundo Mandato

Após uma campanha acirrada (em que o seu fechamento foi o compromisso da Presidenta de que não mexeria nos direitos dos trabalhadores nem que a vaca tossisse), os primeiros movimentos do segundo governo foram contraditórios. Antes mesmo de assumi-lo, a Presidente Dilma anunciou medidas de ajuste, dentre outras, no seguro desemprego, pensão por morte, seguro defeso. Além de levantar a pauta da Reforma da Previdência e confirmar Joaquim Levi para a Fazenda.

Com uma oposição que não aceitava a derrota (Aécio e o PSDB com ações de recontagem e depois de anulação das eleições no TSE), Eduardo Cunha fazendo maioria na Câmara (e impondo sua pauta bomba e de regressão de direitos), a estagnação da economia (queda das commodities no mercado internacional, fragilização da Petrobras e de grandes empresas com a Lava Jato, crescimento do desemprego e aumento da inflação) formou-se um cenário de grande turbulência. Esse ambiente levou a presidente a rapidamente perder a popularidade reconquistada nas eleições. De Dezembro de 2014 a março de 2015 o Governo perdeu seu capital político de forma desastrosa.

Apartada da base que a elegeu, sinalizou com uma orientação de política econômica mais parecida com a do adversário que perdeu as eleições. O mercado não correspondeu, pois o país, mesmo assim, perdeu os graus de investimento pelas agências internacionais e a chamada confiança desabou.

 

A Crise Fiscal

Há décadas os países do mundo se defrontam com a escassez de recursos para o financiamento das políticas de Estado. A saída neoliberal chamada de austeridade já fracassou em todos os cantos do planeta e essa agenda tardia dos golpistas repete de maneira mais profunda as experiências que levaram à quebra de vários países, milhões ao desemprego e à fome. Mas os mercados de capitais, os rentistas e barões do mercado financeiro nunca perderam nada absolutamente. Na crise de 2008 nos EUA os bancos que provocaram a quebra do sistema foram salvos pelo governo com dinheiro do contribuinte. Na Grécia, todos os Bancos se salvaram, mas o país quebrou.

O Brasil passou por todas as últimas crises fazendo políticas anticíclicas que resultou na manutenção de empregos e um crescimento às custas da ampliação do mercado interno - através da ação dos Bancos Públicos e das políticas sociais – e da venda de suas comodities no exterior. Com a diminuição da demanda global essa perna se quebrou, o mercado interno também se ressentiu, as receitas caíram e não foi mais possível bancar todos os custos gerados pelos investimentos feitos na infraestrutura social e econômica do país nesse período e nem as desonerações feitas.

Qual é a saída? É possível auditar a dívida? É possível diminuir seu peso na composição do orçamento? A essa questão o PT precisa dar uma resposta mais clara para a população. Porque várias iniciativas já foram feitas como a desdolarização de grande parte da dívida brasileira e o aumento das reservas internacionais.

O país precisa crescer incluindo o povo no orçamento.

 

As Ruas

A Direita volta às ruas com o apoio e financiamento da oposição, da Mídia empresarial, de setores do empresariado e de ONGs internacionais. Os panelaços se intensificam. Escondidos atrás da bandeira contra a corrupção, foi se evidenciando que o objetivo era derrubar o governo, frear os avanços sociais conquistados e criminalizar o PT. As sucessivas ações espetaculares ao vivo da Operação Lava Jato e o sequestro do Presidente Lula no aeroporto de Congonhas compunham o pano de fundo que facilitaria o golpe.

A esquerda e os movimentos sociais custaram a reagir, mas se estabeleceu um amplo campo de denúncia e luta contra o Golpe institucional. Grandes manifestações conjuntas e milhares de Atos específicos em todo o Brasil e em outros países iniciaram uma nova etapa. A criação da Frente Brasil Popular e da Frente Povo Sem Medo, a ofensiva da CUT, do MST, MTST, da CMP foram fundamentais para a resistência que se estabeleceu. Mas não foi suficiente.

 

O Golpe Institucional

Está em aberto a reflexão sobre o acontecido: Os partidos que participavam do governo Dilma aderiram à articulação do impeachment - conduzida até então pelo Vice-Presidente da República e pelo Presidente da Câmara. Saíram para ficar, digamos assim, pois todos estão no governo do Conspirador Temer. Alguns dos Ministros são os mesmos, em pastas diferentes. E aplicando outro Programa, que não foi o eleito pelo povo.

A Presidenta não cometeu crime de responsabilidade. A peça e o ritual do impedimento, montados sob pretextos para dar ares de legalidade, não passaram de uma farsa. O STF compôs a cena e abriu mão de prerrogativas que poderiam ter impedido o andamento da farsa na Câmara, pois a lei não pode retroagir como fez o TCU ao apreciar as chamadas pedaladas e os Decretos orçamentários. Ao final a perícia técnica do Senado definiu que não houve crime em “pedaladas” nem nos Decretos do Plano Safra. O STF poderia ter resolvido essa questão logo no primeiro Recurso apresentado pela defesa da Presidenta Dilma. Mas lavou as mãos.

O que permitiu, de fato, a formação dessa maioria ruidosa e golpista? Falta de habilidade da Presidenta e sua equipe na relação com o Congresso? Na relação com os vários segmentos da sociedade brasileira? Foi formado um novo pacto de setores hegemônicos da elite econômica do país? Foi uma ampla teia de interesses internacionais, comandada pelos EUA que articulados com a Mídia empresarial deu suporte à ação dos golpistas? Foi o receio do avanço das investigações da Operação Lava Jato, até então livres de pressão governamental?

Provavelmente um pouco de cada coisa, mas sobretudo foi posto em xeque o sistema político e eleitoral brasileiro. Esse sim, se esgotou: Bancadas formadas exclusivamente através do financiamento privado prestam continência a seus financiadores, não à Constituição, ao povo e à democracia; o presidencialismo de coalisão, as coligações proporcionais, o voto nominal, a enorme quantidade de partidos nanicos (ávidos pelo Fundo Partidário que virou negócio pra muitos). Esse modelo foi posto em xeque porque o Brasil mudou, mas a forma de organização da democracia e da política não acompanhou a mudança. Ao final o modelo tradicional (praticamente intacto) vigente se sobrepôs às mudanças e deu o golpe para frear as mudanças.

O PT não terá como fugir a esse debate, afinal de contas tivemos momentos de certa “hegemonia” (digamos, precária maioria parlamentar em questões chaves, mas com apoio popular) onde poderíamos ter realizado uma Reforma Política mais progressista, com maior valor à democracia e à participação da sociedade. Na oportunidade que tivemos sob a presidência de Arlindo Chinaglia, alguns deputados do PT foram os principais responsáveis pela não aprovação do melhor projeto até então pronto para ser votado na Câmara.

 

A Mídia

Os deputados e senadores não teriam coragem de dar esse golpe sem o amplo apoio da chamada Grande Mídia brasileira. Comandados pelo império da Rede Globo e pela Revista Veja houve um alinhamento geral na criação de um ambiente propício ao impedimento. Essa investida do sistema midiático contra os governos Lula e Dilma existiu desde sempre, mas foi intensificado em 2013 e 2014. Após perderam as eleições de 14 amplificaram ainda mais os ataques dando as garantias de cobertura aos parlamentares golpistas. O não enfrentamento da questão da Comunicação – alguns itens até previstos na CF) foi outro equivoco irremediável dos governos populares. E não teremos como fugir desse debate também. Afinal de contas nós os financiamos para eles nos derrubarem. E não fomos capazes nem de construir uma rede sólida de comunicação alternativa nem de disputar espaços de grande audiência. A iniciativa da criação da EBC foi louvável, mas de tal forma tacanha que sequer deu tempo de disputar audiência e/ou opinião.

 

A reação Internacional

A comunidade Internacional reagiu contra o Golpe. Houve manifestação pública de denúncia em todos os continentes. Organismos internacionais, movimentos sociais, entidades públicas, personalidades, jornais, TVs, se manifestaram em graus diferentes. O relevante é que o mundo percebeu o que se passava no Brasil. Os golpistas estão isolados no mundo. Nem mesmo os EUA, que tem interesse em desestabilizar a unidade Latino-Americana construída desde 2003 e o avanço da integração regional, se manifestou abertamente a favor da manobra parlamentar-midiática para depor a presidenta eleita.

Os primeiros gestos do governo interino golpista foi desmerecer o a integração regional, impor constrangimento a seus organismos e vetar a Venezuela que por direito assumiria a presidência do Mercosul. Um velho alinhamento subalterno se avizinhava, disposto a entregar as riquezas do pré sal, o sistema elétrico, os Correios, o sistema educacional e de saúde, o aquífero Guarani...  Além de reduzir o papel dos bancos públicos, que avançaram enormemente durante os últimos 13 anos.

 

O teatro no Senado

Desde o aceite do processo de impeachment oriundo da Câmara, que dera um show - compatível com piores Programas de auditório -  na votação comandada pelo réu Eduardo Cunha, o Senado virou um palco de comédia dramática. Todos os ritos seguidos, exaustivas sessões de depoimentos, testemunhas das partes, recursos, questões de ordem, medida cautelar, perícia. Enfim, a garantia de um rito que pudesse dar ares de respeito à Constituição... O direito de defesa... e portanto, o processo de afastamento da presidenta teria sido legal...

Na realidade a decisão já estava tomada desde o afastamento provisório pela Câmara e a consequente formação do governo interino, que usou as prerrogativas do cargo para compor um governo sustentado na nova maioria golpista.

Nem o relatório da perícia do Senado que concluiu não haver crime nos decretos de Suplementação e no Plano Safra, nem a decisão do MPF de que não há crime nas chamadas pedaladas fez com que o relator do PSDB mudasse uma vírgula em seu texto condenatório, já pronto antes das longas sessões teatrais.

 

As medidas do governo provisório do Conspirador

O governo interino se formou tirando o PT, o PCdoB e o PDT do governo, e substituindo-os pelos partidos que perderam as eleições em 2014. Nessa nova composição o discurso do ajuste fiscal duro para conter a crise de financiamento do estado foi o discurso reverberado pela mídia neo liberal. Mas nenhuma medida da chamada austeridade foi tomada na interinidade. Pelo contrário, os golpistas cederam aos aumentos do Judiciário, de setores do serviço público e concederam aumentos ao Programa Bolsa Família – que atacavam e que havia vetado. Os Ministérios viraram salas de atendimento de suas bases eleitorais da maneira mais escancarada. Cada Ministro cuida de seu estado, remanejando verbas para atender seus prefeitos e deputados. Recepções e jantares, uso indevido de voos da FAB, austeridade só para o mais fracos.

As medidas do governo golpista na interinidade são anunciadas publicamente para serem efetivadas após a votação definitiva do golpe. Mas medidas com consequências gravíssimas ao crescimento brasileiro estão sendo tomadas e aprovadas no Congresso, como a PEC 241/55 que congela por 20 anos os gastos dos governos pela inflação do ano anterior. Esse é o centro do Golpe. Reduzir os investimentos em políticas públicas para liberar à iniciativa privada os setores de Saúde, Educação, Previdência, Segurança, etc. Dentre as 16 MPs editadas pelo golpista estão também a que reduz os subsídios do FIES, que suspende Concursos até 2018, que reduz para apenas 10 meses prazos para licenças ambientais e garante que a obra se inicie só com o estudo prévio de impactos ambientais. E a MP da chamada PPI que muda o modelo de concessões de modicidade tarifária para priorizar a remuneração do investidor, a reforma do Ensino Médio por meio de MP, dentre outras. Um grande retrocesso.

A nomeação do General Etchegoien, (com seu histórico de vinculação familiar à ditadura) para a GSI e a militarização da ABIN colocam os Generais novamente dentro do Palácio, secundarizando o Ministério da Defesa, de chefia civil.

As maiores empresas públicas e de economia mista nacionais como BB, CEF, Correios, Infraero, Petrobras, BNDES, assim como as áreas de saúde, educação e todas as demais estão sendo desestruturadas para atender os interesses do mercado, principalmente o norte americano. Os beneficiários são os patrocinadores do golpe.

 

Os rumos do desenvolvimento econômico e social brasileiros

O que está sendo desenhado pelo governo golpista é outro tipo de economia e sociedade. É o modelo neoliberal levado ao seu extremo com a diminuição do papel do Estado, a precarização dos serviços públicos, a derrocada da indústria nacional, a entrega de tudo que for possível às Corporações privadas e o abandono dos mais pobres e deserdados à própria sorte. A consequência inexorável será o aumento da violência e da pobreza e a condenação de várias gerações de nossa juventude ao subemprego e à falta de oportunidades de ascensão econômica, social e cultural.

O Brasil que vinha se desenhando desde 2003 era o oposto desse cenário e para retomar aquele rumo de inclusão social, econômica, política e cultural é preciso barrar o golpe enquanto há tempo. Não há outro caminho nesse momento senão a luta popular sem trégua contra as medidas de desmonte, por eleições diretas Já e a convocação em seguida de um processo Constituinte que restabeleça a democracia no país.

 

Os novos desafios do PT

Sofremos uma derrota sem precedentes. Como poderíamos imaginar que depois de tanta luta, após vencer quatro eleições seguidas e promover mudanças tão substanciais no país, que melhoraram a vida da maioria da população, seríamos apeados do governo por uma conspirata que envolveu o vice-presidente da chapa e reuniu a oposição com a maioria dos nossos até então aliados?

Também, como poderíamos imaginar que o Partido fosse carimbado com o estigma da corrupção, depois de tanto combatê-la, de criar os mecanismos mais avançados de transparência e de investir na autonomia e estruturação do Ministério Público, da Polícia Federal e dos órgãos de controle?

O grande erro do PT foi usar métodos até então praticados pelos políticos brasileiros para viabilizar suas campanhas e achar que seria tratado da mesma forma com que a justiça e a mídia tratavam os demais partidos. Ledo engano. O PT nunca foi aceito nesse clube, foi no máximo tolerado por um certo tempo. E a estrutura burocrática do Estado, então fortalecida através de maior orçamento e autonomia de gestão tomou corpo e foi utilizada como arma política contra o próprio governo e seu principal partido.

A propaganda feroz da Mídia contra o PT, repercutida por cínicos políticos que usam e abusam de toda sorte de rapinagem desde sempre, embalou a mobilização contra a corrupção como se o PT a tivesse criado no Brasil. É preciso responder à altura, desmascarar o cinismo e a hipocrisia e enfrentar nas ruas e em todas as instâncias judiciais a parcialidade e a perseguição política ao nosso Projeto para o Brasil. A fadiga aos governos do PT, para além de suas insuficiências, foi estimulada diariamente pelos meios de comunicação de direita.

 

O PT precisa se revigorar

Nenhuma força política da esquerda foi catalizadora da perda de capital político do PT. O que está havendo é um crescimento da extrema direita e da direita. E mais ainda da desilusão com a política perceptível no grande vitorioso em quase todo o país nas últimas eleições: a abstenção, os votos nulos e brancos.

Nesse cenário de terra arrasada o PT segue sendo o Partido mais preferido daqueles que se declaram simpatizante de algum partido, com 12% declarados em recente pesquisa. O PT segue sendo uma alternativa política para as maiorias, mas precisa se revigorar e dar sinais à sociedade de vitalidade e sintonia política com os problemas do povo.

O PT precisa dizer ao povo que continuará lutando pela política de valorização do Salário Mínimo, contra uma Reforma da Previdência que retire direitos conquistados, que é contra o desmonte da Saúde, da Educação e da assistência Social que está sendo feita.

O PT deve dizer ao povo que lutará por uma Reforma Política que diminua o peso do poder econômico e as práticas ilegais de financiamento eleitoral e ao mesmo tempo estimule a participação da sociedade na definição dos temas relevantes. Que o Partido estará vigilante e não tolerará práticas ilegais que venham a ser praticadas por qualquer de seus membros e aumentará a vigilância sobre as demais agremiações partidárias. Que lutaremos para restabelecer o Estado Democrático de Direito e uma Justiça apartidária.

Prevaleceu em nossos governos uma certa ingenuidade republicana, beirando ao desconhecimento da história precedente de golpes, da força das oligarquias regionais, do peso da burocracia jurídica prevalente, do papel da mídia monopolista familiar- empresarial.

O maior desafio do PT é se revigorar, tendo em vista a sua história de construção de um partido de massas e seus compromissos com as classes trabalhadoras, sem cair na tentação do gueto e isolamento nem no abismo do vale tudo da política nacional.

Reafirmar seu programa de um Desenvolvimento Nacional tendo como eixos a integração regional e uma inserção soberana no mundo. Sustentar sua visão vitoriosa, porque colocada em prática, de que é possível o país crescer, com a inflação baixa, com inclusão social e distribuindo renda. É trazer para esse campo de luta milhões de brasileiros e brasileiras que defendem nosso projeto com foco na justiça social.

Mas para isso, é necessário assumir que o atual sistema político-eleitoral no Brasil se esgotou. Praticamente inviável a um Partido de esquerda manter a fidelidade necessária às bases de seu programa, se depender do financiamento privado. E sendo governo, a aplicação do seu programa fica extremamente limitada se depender de um Congresso onde a maioria não foi eleita nem por um Partido nem com votos diretos dos eleitores. As coligações proporcionais, aliado ao financiamento privado e ao abuso do poder econômico, ao voto nominal e à proliferação de partidos de aluguel geram o maior desvio de representação popular nos parlamentos. A política se desmoraliza porque vira um grande negócio de profissionais espertalhões. Qualquer governo que dependa de uma maioria assim, terá dificuldades para executar um Programa mais avançado de mudanças estruturais que o Brasil precisa.

Portanto, o PT precisa se reinventar no sentido de combinar a luta por um novo sistema político e eleitoral com a  luta  por Reformas estruturantes que fortaleçam a democracia social e econômica. As Reformas Política e Tributária, a Regulamentação dos artigos da CF sobre a Comunicação e políticas fortes em Educação, Ciência, Tecnologia e Saúde devem ser prioridades pra valer. Essas diretrizes programáticas devem constituir uma base sólida para uma aliança social e partidária mais clara e objetiva, que possa reestabelecer o Diálogo com o povo.  

A forte ausência de disputa do significado das políticas que implantamos nesses 13 anos reduziu a nossa defesa pelos setores incluídos por nossos governos. Deixou-se a impressão de que qualquer um podia fazer o que fizemos, enquanto há diferenças essenciais nos nossos Projetos e programas dos da direita. É preciso disputar pela esquerda, com conteúdo de classe, às políticas que implantamos, porque aí está um aspecto importante da disputa pelos Recursos Federais entre os setores e classes sociais.

O PT precisa reequilibrar sua dinâmica, dando os devidos pesos à sua ação organizativa (funcionamento e caráter de instâncias, órgãos e setoriais, a formação permanente de seus quadros, dirigentes e filiados), à sua ação institucional (nos parlamentos e nos governos eleitos e em órgãos públicos dirigidos por seus filiados) e à sua ação junto aos movimentos sociais, sintonizando com suas pautas, apoiando suas causas legítimas, fortalecendo a dimensão da luta popular e arejando o partido.

O peso excessivo de nossa atuação na frente institucional deixou o Partido árido, rebaixou nossa formulação, acomodou nossa força militante, enfraqueceu as instâncias e a presença nas lutas do povo ficou muito reduzida.

Da mesma forma é preciso restabelecer canais permanentes de diálogo com a intelectualidade brasileira, seja através dos debates no Partido, na Fundação Perseu Abramo e mesmo na configuração e participação de nossas direções nos debates abertos nas Universidades e Instituições do mundo acadêmico e científico.

Essa é uma necessidade urgente e estratégica se queremos de fato garantir que o PT não se dilua definitivamente na mesmice da maioria dos partidos e da política brasileira. Essa questão deve ser elevada como uma das dimensões da Escola Nacional de Formação.

 

A política dos governadores

O peso da política dos governadores nos arranjos federativos, preponderante na primeira República, é um aspecto revelador da política brasileira, pois permaneceu como um traço de nossa cultura política. Após a formação de partidos de caráter nacional, os governadores passaram a impor sua força internamente no seu Partido de ocasião, a comandar Bancadas Estaduais e participar dos arranjos Federativos através de conveniências políticas.

É tão forte esse traço que o PT está sendo aculturado: a tradição do mando político estadual (onde o governador submete o Partido à sua agenda e conveniências sem o diálogo e construções necessárias), mais abaixo os subchefes donos de mandatos (que controlam Diretórios municipais, e ampliam suas alianças com chefes de outros partidos locais), a liberalização geral na política de alianças e coligações informais (a ponto de vários candidatos e mandatários do PT se articularem localmente com adversários do PT e até apoiá-los em eleições contra nossos candidatos).

Todo Partido que pretende ser de massas, precisa de Programa, Política, Formulação, Quadros, Militância, Fidelidade, Povo Organizado, Gestores Públicos capacitados e comprometidos. A seguir nessa dispersão em que se encontra, o PT não resistirá e deixará de ser o instrumento mais importante que a classe trabalhadora construiu para mudar o Brasil. Essa é uma dura realidade e precisa ser enfrentada.

As novas gerações se sentirão atraídas a militar no PT nesse grau de aculturação aos modos e costumes políticos tradicionais?

 

Por onde, como e com quem caminharemos?

Nossa forma de organização no próximo período deve corresponder mais proximamente aos desafios políticos postos nessa nova conjuntura ao Partido e ao País. Nesse sentido, o 6º Congresso a se realizar em abril de 2017, deve ser precedido de um bom debate na militância.

A principal agenda de 2017 é atualizar nosso Programa para o Brasil, construir uma nova Direção Nacional capaz de enfrentar a luta em defesa do povo brasileiro, da democracia, do PT e de nossa principal liderança, o companheiro Lula, alvo de uma caçada jamais vista na história do país. E capaz de unificar um grande campo democrático e popular, reunindo forças para retomar o governo em outubro de 2018.

O PT deve se preparar em duas frentes nesse período: Organizar suas bases, promovendo as mudanças necessárias no Partido para enfrentar o debate na sociedade sobre o caráter do atual governo e suas medidas antipopulares, fortalecendo as lutas em andamento e, ao mesmo tempo, participar ativamente das iniciativas pela formação de uma Frente Ampla Popular e Democrática que se articule para derrotar a direita política e eleitoralmente.

O 6º Congresso deve aprovar as Diretrizes atualizadas de nosso Programa para o Brasil, precedido de amplo debate com toda nossa militância, com a intelectualidade, a juventude, as entidades dos trabalhadores do campo e da cidade. Um Congresso aberto, arejado onde se respeite toda opinião e o processo democrático interno.

O Congresso é momento do Partido pautar um debate público sobre o Brasil, sobre as propostas do PT e se posicionar sobre os ataques que vem sofrendo no campo da ética pública e da moralidade política.

Coordenação

Construindo Um Novo Brasil.

Website: construindoumnovobrasil.com.br/

É uma corrente interna do PT, da qual fazem parte alguns dos principais ministros do nosso governo e o próprio Luiz Inácio Lula da Silva, entre outros quadros importantes. A corrente nasceu em 1983, a partir do Manifesto dos 113, que buscou organizar o grande número de militantes...