Artigo: A luta aterrada

Entre as horas que separam o metralhamento da sede da União Nacional dos Estudantes na noite de 30 de março, e seu incêndio no dia 1 de Abril, a história de uma geração de brasileiras e brasileiros se delineou. Quarenta e oito anos depois, nos meados do quinto aniversário da retomada do terreno no número 132 da Praia do Flamengo, cabe retomar algumas velhas questões e expor o forte conteúdo simbólico por trás de tais dois gestos – talvez os primeiros gestos de perseguição política da Ditadura Civil-Militar que ali se iniciava.

A luta da UNE contra os setores que ascenderam ao poder em 64 começa muito antes do próprio golpe. Já desde o lançamento da Campanha “O Petróleo É Nosso”, em 47, o movimento estudantil vinha se batendo contra os setores entreguistas da sociedade brasileira. A criação da Petrobrás só viria anos mais tarde, em 53. Cinco anos depois, na mobilização pela abertura da CPI da Shell e da Esso, o mesmo embate pela exploração nacional do petróleo se repetiria.

A partir da década de 60, o movimento estudantil entra em intenso processo de debates para a formulação de um projeto de Reforma Universitária. Por ocasião da discussão no Congresso Nacional sobre a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, é organizado, em Salvador, o Seminário Nacional da Reforma Universitária. O projeto resultante do Seminário viria a compor a miríade de demandas por Reformas de Base encampadas pela Frente de Mobilização Popular. A unidade dos setores populares avançava na mesma intensidade em que se fortaleciam as aspirações golpistas das elites brasileiras, aliadas a setores das Forças Armadas e ao interesse das multinacionais e do governo estadunidense.

A radicalização por parte de ambos setores levou, em 61, a um teste de forças. Vitoriosos em sua defesa da posse de Jango diante da renúncia de Jânio Quadros, os setores unidos na Campanha da Legalidade passaram da defensiva para a ofensiva, espalhando pelo país sua luta pelas Reformas de Base. Ao lado da luta da CGT e das Ligas Camponesas, o movimento estudantil chega a decretar no ano de 1962 Greve Geral. Foram cerca de 40 universidades paralisadas por quase 3 meses.

Por todos esses motivos, o movimento estudantil foi, ao lado do movimento sindical da cidade e do campo, alvo prioritário do projeto de poder entreguista que se aninhava no Estado pela via do golpismo. As sucessivas derrotas sofridas pelos setores populares no período subsequente põe às claras as diferenças dos projetos em jogo. No campo da Educação, a Refoma Universitária defendida pela UNE e o Plano Nacional de Alfabetização estruturado por Paulo Freire foram derrotados pelos acordos MEC-USAID, entre o governo brasileiro e o estadunidense para a privatização da escola pública brasileira. Malograda a tentativa, o MEC-USAID resultou na diminuição de um ano de estudos nas escolas, além da retirada de matérias como Filosofia e Educação Política do curriculum, instituição da obrigatoriedade do ensino da língua inglesa e redução da carga horária de matérias como História. No âmbito do Ensino Superior, os acordo com o governo estadunidense levaram à abertura ao capital estrangeiro e à respectiva proliferação das Universidades Privadas.

Primeiro gesto de violência da Ditadura de 64 contra a sociedade civil, a destruição da sede da UNE carrega em si o início da desarticulação e enfraquecimento dos atores da Frente de Mobilização Popular. Por anos, o edifício incendiado no aterro do Flamengo foi a triste marca de um passado de lutas. Não satisfeita em metralhar – enquanto havia estudantes no prédio – e incendiar a edificação, destruindo todo o arquivo do CPC da UNE, a ditadura militar, em 1980, dá ordem de demolição da sede das entidades estudantis.

Em 2007, há exatos 5 anos, no dia 1º fevereiro, os estudantes ocuparam e retomaram o terreno, na Praia do Flamengo, 132, no qual há anos funcionava irregularmente um estacionamento. Dezenas de milhares de estudantes, artistas, ex-presidentes da entidades se mobilizaram para a volta da UNE à sua casa.

A investida da ditadura civil-militar contra a UNE e mesmo os ataques da Direita nos anos 90 não são por acaso. Metralhar, incendiar e demolir a casa dos estudantes brasileiros tem em sua simbologia a tentativa de metralhar, incendiar e demolir sonhos e ideais. A despeito desta tentativa, os estudantes lutaram e resistiram durante toda a Ditadura por uma Educação de qualidade para todos e todas, por liberdade, justiça social e democracia. Muitos foram assassinados e torturados. A pesar disso, o ato realizado naquela tarde de 1 de fevereiro de 2007 mostrou que os sonhos e os ideais resistiram. Hoje, o terreno retomado, se torna símbolo do poder de resistência do movimento estudantil. Lembrete do sentido de nossa luta – e de quem foram e são os interessados em manter o Brasil e a Universidade Pública sob o julgo da desigualdade e do atraso. Cabe aqui, para o m.e. brasileiro, a importância de memorar e comemorar sua luta.

Resistimos, e nossa história não se apagará! A Casa do Poder Jovem é nossa denovo. “Nas ruas, nas praças, da luta na fugiu. Aqui está presente o movimento estudantil”.

Gabriel Landi Fazzio é diretor de Memória do Movimento Estudantil da União Nacional dos Estudantes - UNE

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